sexta-feira, 19 de maio de 2017

07 – Dylan Dog – A Zona do Crepúsculo (Record)





Editora: Record
Autores: Tiziano Sclavi (texto), Giuseppe Montanari (desenhos) e Ernesto Grassani (arte-final)
Preço: Cr$ 2.700,00 (preço da época)
Número de páginas: 100
Data de Lançamento: Março de 1992        

Sinopse: Uma jovem habitante da pequena e misteriosa cidade de Inverary, chamada Mabel Carpenter, começa a desconfiar que sob a aparência pacata de sua comunidade se esconde um terrível segredo. Na ânsia de trazer a verdade à tona, ela decide ligar para Londres e pedir ajuda a Dylan Dog.

Crítica:

Em meio aos agradáveis desenhos de Montanari e Grassani, acompanhamos aqui uma história onde impera o tom farsesco, que deixa claro desde o início que o panorama observado – oscilante entre o bizarro e o cômico – não corresponde à realidade ordinária, ficando ao leitor o desafio de tentar compreender, enquanto acompanha a jornada de Dylan e Groucho pelas brumas noturnas de Inverary, o que, de fato, está se desenrolando. Seria “A Zona do Crepúsculo” uma dimensão paralela? Um vislumbre da vida pós-morte? O delírio da mente de um louco? Como de costume, a resposta só vem nas últimas páginas.

Nesta aventura, alguns elementos me agradaram bastante, como, por exemplo, as menções ao misterioso pai de Dylan, que nos fazem saber que ele também combatia o mal de alguma forma, tendo inclusive confrontado o diabólico Xabaras no passado. E por falar neste último, é interessante como Sclavi utiliza essas edições iniciais da saga do Investigador do Pesadelo para criar uma mitologia em torno de seu antagonista. Embora só tenhamos visto Xabaras na primeira edição, ele é frequentemente mencionado, e não raras vezes Dylan encontra vestígios de sua passagem por onde anda, cruzando com discípulos e parceiros que mantém viva a sensação de que, em algum momento, um novo confronto será inevitável. Ponto para o roteirista, que cria uma instigante expectativa sobre o que está por vir nas edições futuras.

Impossível não mencionar também o belíssimo recurso metalinguístico utilizado ao inserir uma história dentro da história, onde acompanhamos quadro a quadro o desenrolar de um conto do consagrado escritor Edgar Allan Poe em sua narrativa sobre o caso do Sr. Valdemar.

Por fim, em “A Zona do Crepúsculo” – uma das histórias mais lembradas pelos fãs da fase em que Dylan Dog esteve sob a tutela da Editora Record – Sclavi aprofunda de vez uma tendência já exposta na edição anterior: desenvolver seus roteiros mesclando não apenas elementos tradicionais das narrativas de horror e suspense com especulações científicas e tecnológicas, mas também adicionar preceitos de variadas vertentes de filosofias ocultistas. Além da abordagem explícita do Mesmerismo, temos aqui também clara referência a conceitos-chave do Hermetismo e da Teosofia, identificáveis em obras de autores como Eliphas Levi e C. W. Leadbeater. Isso eleva o texto a um nível que vai além do mero entretenimento – embora seja perfeitamente possível encarar a aventura apenas dessa forma – podendo servir ainda como estímulo para verdadeiros questionamentos existencialistas. Existe critério para definir como uma vida vale à pena ser vivida? É preferível encarar a morte de frente, com todos os seus mistérios e incertezas, ou se entregar a uma existência pautada em um ciclo infinito de trivialidades? Com certeza, não são muitos os gibis que permitem esse tipo de reflexão. 
     
Classificação: 4,0 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

06 – Dylan Dog – A Beleza do Demônio (Record)





Editora: Record
Autores: Tiziano Sclavi (texto), Gustavo Trigo (desenhos)
Preço: Cr$ 1.900,00 (preço da época)
Número de páginas: 100
Data de Lançamento: Fevereiro de 1992

Sinopse: Dylan Dog é contratado por um ex-matador de aluguel chamado Larry Varedo com o objetivo de encontrar um homem com quem ele havia assinado um insólito contrato de trabalho várias décadas antes, mais especificamente em 1945. Durante as investigações, Dylan percebe que há algo demoníaco no mistério por trás da história, e que os envolvidos não são exatamente o que parecem ser.

Crítica:

Já é fato conhecido que em praticamente todas as aventuras de Dylan Dog podemos encontrar reviravoltas e elementos surpresa. Nesta edição, porém, Sclavi parece ter levado essa lógica a outro patamar de imprevisibilidade. Durante toda a leitura nos acompanha a sensação de que nada do que está sendo mostrado corresponde ao que é realmente, e mesmo quando achamos que entendemos algo, essa impressão dura umas dez ou vinte páginas, no máximo, para então uma nova informação adicionada ao intrincado quebra-cabeça da investigação nos mergulhar novamente nas dúvidas e no estranhamento.

Conforme o próprio título da história e a ilustração da capa já indicam, boa parte do mistério se sustenta na desconfiança de que algum personagem da trama seja uma representação do demônio, e essa expectativa é constantemente subvertida até o esclarecimento final.

Além da complexa investigação, digna de um bom thriller cinematográfico, o que mais me chamou a atenção foi a constatação de que, assim como o escritor Alfredo Castelli demonstra ter muito conhecimento de História, Antropologia e Mitologia para desenvolver suas aventuras sobre Martin Mystère, Tiziano Sclavi, por sua vez, evidencia aqui seu embasamento no Ocultismo, sendo que, para os conhecedores, é fácil encontrar referências às ideias expostas em obras de autores como Eliphas Levi, McGregor Matters e até Allan Kardec. Eu diria mesmo que, a partir dessa edição, o roteirista começa a levar as histórias de Dylan Dog (algumas delas, pelo menos) a outro nível, transcendendo a mera fantasia de terror e suspense para explorar reflexões esotéricas de natureza mística.

Entre os pontos de destaque, gostei da atmosfera lúgubre e desesperançada da Londres pós Segunda Guerra Mundial, exposta no flashback inicial, da hilária cena do Groucho na cadeia e do desfecho da trama, surpreendente e bem elaborada.

 Os desenhos de Gustavo Trigo provavelmente sejam os mais simplórios dentre os diferentes artistas que ilustraram as várias edições até aqui, nada acrescentando além do convencional.

Em resumo, essa parece ser uma aventura que evidencia muito bem algumas das razões pelas quais o Investigador do Pesadelo tenha adquirido a aura cult que o acompanha até hoje, sendo que a cada edição vai ficando mais claro que se trata de algo que vai muito além de um simples gibi de terror.

Classificação: 3,0 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

05 – Dylan Dog – Os Matadores (Record)





Editora: Record
Autores: Tiziano Sclavi (texto), Luca Dell’Uomo (desenhos)
Preço: Cr$ 1.500,00 (preço da época)
Número de páginas: 100
Data de Lançamento: Janeiro de 1992

Sinopse: Sem nenhuma razão aparente, diversos cidadãos londrinos passam a cometer atos aleatórios de brutal violência, descambando rapidamente em uma onda de assassinatos de grandes proporções. Em meio a esses insólitos acontecimentos, um milionário chamado H. G. Wells contrata Dylan Dog para investigar a situação e ajudar a provar sua teoria de que Londres está infectada por uma “atmosfera de maldade”, que pode ser devidamente medida através de um miraculoso equipamento por ele inventado.

Crítica:

“Os Matadores” é sem dúvida uma das minhas histórias favoritas de Dylan Dog, não apenas entre as lançadas pela editora Record, mas de toda a trajetória do personagem, pelo menos até onde tive acesso. Em alguma medida, todos os elementos que viriam a se configurar nos pilares do sucesso do personagem aparecem aqui: um mistério intrigante a ser desvendado, exposto através de um roteiro inteligente e construído através de um clima crescente de ameaça, contrabalanceado pelas intervenções cômicas de Groucho, e pontuados pela participação sempre importante do Inspetor Bloch e de algum rápido e conturbado affair de Dylan, culminando em um final-surpresa que, no caso específico dessa edição, chega até mesmo a ser chocante.

Sendo a aventura mais violenta do personagem entre as publicadas até então, aqui abundam cenas de mortes com tiros, facadas, agulhas de crochê e ferramentas diversas, chegando até a uma furadeira. Além da maneira convencional, todos esses fatos macabros vão sendo abordados através de um interessante recurso narrativo que consiste na exposição de manchetes e trechos de notícias do jornal Daily Mirror, que mostram os crimes isolados progredindo até se tornarem assassinatos em massa, originando grupos de reação entre a população apavorada e culminando com a intervenção do exército nas ruas, ilustrando um clima de fim do mundo semelhante àquele geralmente visto em filmes apocalípticos, em especial os que contam com epidemias de zumbis.

Contudo, a trama ainda acrescenta outros interessantes aspectos, como obscuras conspirações que visam tirar proveito do caos reinante, e a mistura sempre intrigante de tecnologia com elementos de magia e ocultismo. Sem falar em uma empolgante sequência de perseguição de carro, que provavelmente seja a mais divertida que já tive a oportunidade de ver em uma história em quadrinhos.

Impossível não destacar também a participação do inteligente e carismático personagem H. G Wells, que, além do nome do famoso escritor de obras clássicas como “A Guerra dos Mundos” e “A Ilha do Dr Moreau”, também herdou semelhanças com a fisionomia do mesmo, em uma clara homenagem prestada pelo roteirista Sclavi. Aliás, personagem com nomes de escritores, atores e diretores ligados ao horror e a fantasia são constantes nas histórias de Dylan Dog e um dia escreverei um artigo só sobre isso.

 Sobre os desenhos, podemos dizer que o trabalho de Luca Dell’Uomo nessa edição é simplório. Se por um lado estão longe de poderem ser consideradas ruins, por outro as ilustrações pouco contribuem para tornar a degustação da história mais relevante, exceção feita, talvez, à cena da perseguição de carro, onde temos alguns quadros com ângulos realmente criativos.

Não posso encerrar sem fazer uma menção ao final da história, que, além de surpreendente, me chocou por revelar uma faceta fria e maquiavélica de Dylan Dog que ainda não conhecíamos. A reflexão que fica é: o que fazer para resolver um grave problema quando as soluções óbvias se mostram corrompidas e incapazes de funcionar? O Investigador do Pesadelo deu a resposta do seu jeito.
  
Classificação: 4,5   

terça-feira, 9 de maio de 2017

O nº 01 de Dylan Dog pela Editora Lorentz está chegando às bancas


A Editora Lorentz - atual responsável pela retomada da publicação das aventuras de Dylan Dog no Brasil - divulgou hoje um comunicado afirmando que a chegada dos exemplares da edição nº 01 nas bancas das capitais de São Paulo e Rio de Janeiro deve ocorrer no dia 13 de maio. Para as demais capitais e cidades do interior do país, a distribuição está prevista para se realizar a partir de 20/05.

Intitulada "Retorno ao Crepúsculo", a história dessa primeira edição é inédita no Brasil, e será publicada em formato italiano, com 100 páginas, lombada quadrada e capa plastificada.

sábado, 6 de maio de 2017

04 – Dylan Dog – O Fantasma de Anna Never (Record)




Editora: Record
Autores: Tiziano Sclavi (texto), Corrado Roi (desenhos)
Preço: Cr$ 990,00 (preço da época)
Número de páginas: 100
Data de Lançamento: Novembro de 1991


Sinopse: Dylan Dog está tentando ajudar seu amigo Guy Rogers, um ator de cinema decadente e alcoólatra que vem sofrendo com terríveis pesadelos, onde são recorrentes brutais cenas de mutilações e assassinatos, além da suposta presença do fantasma de uma atriz principiante ainda viva, chamada Anna Never. Enquanto o Investigador do Pesadelo inicia um romance com a própria Anna, o estado mental de seu amigo Guy vai piorando progressivamente, se tornando cada vez mais difícil distinguir entre o que é pesadelo, loucura ou manifestação do sobrenatural. 


Crítica:

Nesta edição, temos pela primeira vez uma estrutura narrativa que posteriormente viria a se tornar recorrente nas aventuras de Dylan Dog, e consiste em propor ao leitor o desafio de tentar entender se os fatos que ele acompanha fazem parte da realidade objetiva da história ou se configuram apenas em delírios da mente de algum personagem. Neste caso específico, a mente em questão é a do ator Guy Rogers, e o foco da ação está centrado na busca de Dylan por respostas que levem a concluir se o amigo tem mesmo vivenciando experiências sobrenaturais ou se apenas se vê às voltas com problemas mentais.

Se desenvolvendo em um ritmo bem mais lento do que na alucinante edição anterior, o marasmo da investigação acaba sendo contrabalanceado com as tiradas de Groucho, que aqui parecem mais inspiradas que de costume, contando inclusive como boas gags visuais, como na cena da queda do cenário, no estúdio cinematográfico. Além disso, a própria Anna Never contribui com a comicidade geral através do seu jeito atrapalhado e desastrado, deixando claro que, como atriz, se daria muito bem no ramo das comédias.

Provavelmente o ponto alto dessa história seja a reflexão final acerca do velho paradoxo que contrapõe “determinismo X livre-arbítrio”, aonde vem à tona o questionamento de até que ponto somos realmente livres para tomarmos nossas decisões e a partir de onde nossas vidas seguem um rumo já traçado pelo destino. Também temos nessa aventura um primeiro flerte, ainda que de leve, com a ideia de dimensões paralelas e realidades alternativas que ocasionalmente se entrecruzam, algo que viria a ser explorado com mais profundidade em edições futuras.

Importante mencionar também a bela arte de Corrado Roi, com desenhos detalhistas e traços que conferem expressividade e realismo às fisionomias dos personagens. 

Em última análise, “O Fantasma de Anna Never” certamente não é a melhor aventura do personagem, mas ganha pontos pelo final intrigante e por evidenciar um nítido esforço da parte do autor em desenvolver uma história que foge do convencional, abordando elementos consagrados no imaginário fantástico das histórias de terror, como fantasmas e psicopatas, mas sem se render às soluções simplórias e aos clichês.

Classificação: 3